Vânia e Mônica

Vânia e Mônica

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Posso Errar?
> > Leila Ferreira *
> >
> > Há pouco tempo fui obrigada a lavar meus cabelos com o xampu “errado”. Foi
> > num hotel, onde cheguei pouco antes de fazer uma palestra e, depois de ver
> > que tinha deixado meu xampu em casa, descobri que não havia farmácia nem
> > shopping num raio de 10 quilômetros . A única opção era usar o dois-em-um
> > (xampu com efeito condicionador) do kit do hotel. Opção? Maneira de dizer.
> > Meus cabelos, superoleosos, grudam só de ouvir a palavra “condicionador”.
> > Mas fui em frente. Apliquei o produto cautelosamente, enxagüei, fiz a escova
> > de praxe e... Surpresa! Os cabelos ficaram soltos e brilhantes — tudo aquilo
> > que meus nove vidros de xampu “certo” que deixei em casa costumam prometer
> > para nem sempre cumprir. Foi aí que me dei conta do quanto a gente se
> > esforça para fazer a coisa certa, comprar o produto certo, usar a roupa
> > certa, dizer a coisa certa — e a pergunta que não quer calar é: certa pra
> > quem? Ou: certa por quê?
> >
> > O homem certo, por exemplo: existe ficção maior do que essa? Minha amiga se
> > casou com um exemplar da espécie depois de namorá-lo sete anos. Levou um mês
> > para descobrir que estava com o marido errado. Ele foi “certo” até colocar a
> > aliança. O que faz surgir outra pergunta: certo até quando? Porque o certo
> > de hoje pode se transformar no equívoco monumental de amanhã. Ou o
> > contrário: existem homens que chegam com aquele jeito de “nada a ver”, vão
> > ficando e, quando você se assusta, está casada — e feliz — com um deles.
> >
> > E as roupas? Quantos sábados você já passou num shopping procurando o
> > vestido certo e os sapatos certos para aquele casamento chiquérrimo e, na
> > hora de sair para a festa, você se olha no espelho e tem a sensação de que
> > está tudo errado? As vendedoras juraram que era a escolha perfeita, mas
> > talvez você se sentisse melhor com uma dose menor de per feição. Eu mesma já
> > fui para várias festas me sentindo fantasiada. Estava com a roupa “certa”,
> > mas o que eu queria mesmo era ter ficado mais parecida comigo mesma, nem que
> > fosse para “errar”.
> >
> > Outro dia fui dar uma bronca numa amiga que insiste em fumar, apesar dos
> > problemas de saúde, e ela me respondeu: “Eu sei que está errado, mas a gente
> > tem que fazer alguma coisa errada na vida, senão fica tudo muito sem graça.
> > O que eu queria mesmo era trair meu marido, mas isso eu não tenho coragem.
> > Então eu fumo”. Sem entrar no mérito da questão — da traição ou do cigarro
> > —, concordo que viver é, eventualmente, poder escorregar ou sair do tom. O
> > mundo está cheio de regras, que vão desde nosso guarda-roupa, passando por
> > cosméticos e dietas, até o que vamos dizer na entrevista de emprego, o vinho
> > que devemos pedir no restaurante, o desempenho sexual que nos torna
> > parceiros interessantes, o restaurante que está na moda, o celular que dá
> > sta tus, a idade que devemos aparentar. Obedecer, ou acertar, sempre é fazer
> > um pacto com o óbvio, renunciar ao inesperado.
> >
> > O filósofo Mario Sergio Cortella conta que muitas pessoas se surpreendem
> > quando constatam que ele não sabe dirigir e tem sempre alguém que pergunta:
> > “Como assim?! Você não dirige?!”. Com toda a calma, ele responde: “Não, eu
> > não dirijo. Também não boto ovo, não fabrico rádios — tem um punhado de
> > coisas que eu não faço”. Não temos que fazer tudo que esperam que a gente
> > faça nem acertar sempre no que fazemos. Como diz Sofia, agente de viagens
> > que adora questionar regras: “Não sou obrigada a gostar de comida japonesa,
> > nem a ter manequim 38 e, muito menos, a achar normal uma vida sem
> > carboidratos”. O certo ou o “certo” pode até ser bom. Mas às vezes merecemos
> > aposentar régua e compasso.
> >
> > * Leila Ferreira é jornalista, apresentadora de TV e autora do livro
> > "Mulheres – Por que será que elas..."

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